Até aquela data, mesmo com tantas histórias de violência, ainda não tinha reparado que as pernas podiam treme, o coração acelerar e as lágrimas aparecerem. Mas sempre há uma primeira vez. Tarde de um sábado, quase final de plantão, ligação da Polícia Militar. Sargento Gomes, uma pessoa que depois viria a conhecer pessoalmente, com alegria, comenta sobre um caso.
Ele diz ter viaturas no Jardim Fernanda 1, área periférica, Sul de Campinas. Uma mulher jovem e uma criança mortas. Aliás, um bebê. Foi difícil até engolir ao saber disto. Mas era preciso ir ao local. Fui. Ao chegar, o cenário era desolador: a mulher, de 17 anos, morta com tiros em um caminho aberto no meio do mato.
Alguns metros adiante, a cena aterrorizante: uma bebê, de 10 meses, morta. Sem sinais de tiros ou facadas. Possivelmente foi chacoalhada com tanta violência pelo assassino da mãe dela, que também morreu. Ao olhar aquele pequeno corpo envolto em uma manta, as pernas tremera, o coração acelerou e as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto.
Pedi licença ao policial com quem conversava. Fui até o carro do jornal, encostei-me. Respirei fundo até que me sentisse mais forte para suportar aquela cena. Consegui terminar o trabalho. Mas nunca me esqueci deste dia, que não guardei na memória a data correta. Nem precisava, pois foi muito triste. Como se não bastasse, na semana seguinte, no mesmo bairro, o corpo do pai da criança foi encontrado dentro de um poço.
Ou seja: toda uma família exterminada. O motivo? Estas pessoas tinham emprestado um sofá para um homem, com quem fizeram amizade. Mas pediram de volta este sofá, meses depois, pois tinham conseguido erguer mais um cômodo na casa. O homem não aceitou isto e decidiu pela violência total, em que mesmo uma bebê não foi poupada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário